sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

A alma generosa prosperará

Cena do filme “It’s a wonderful life”, 1946.  No quadro pode-se ler a frase: 
"All you can take with you is that which you've given away." 
(Tudo o que você pode levar consigo é o que você doar.)


Uma amiga disse certa vez que eu sou a filha preferida de Deus. Eu achei engraçado, mas ela tem toda razão: não canso de observar na minha vida livramentos e bênçãos numa quantidade e frequência absolutamente fora do normal. Todos os dias são demonstrações visíveis e indiscutíveis da Sua constante misericórdia (que é quando Deus não me dá o mal que eu mereço) e graça (que é quando Deus me dá o bem que eu não mereço). Neste último ano eu tenho sentido a providência divina tão de perto que posso até dizer como o salmista: “Meu Senhor, são muitos e formidáveis os milagres que tens feito para nós. (...) Gostaria de anunciar ao mundo as tuas grandes obras, mas elas são tantas que não haveria tempo!” (Sl 40:5)

Se eu fosse contabilizar as bênçãos por meio de porcentagem, digamos que cerca de 10% foram por pura “sorte” (digo, divina providência - Pv 16:33), umas 30% são fruto do meu “esforço pessoal” (ou melhor, Deus operando através da minha vida - Fp 2:13), e a imensa maioria, 60%, foi certamente pela generosidade dos amigos e irmãos ao meu redor. “Como pagar ao Senhor por todas as coisas boas que fez por mim?” (Sl 116.12) São tantas ajudas que tenho recebido, que me sinto até constrangida. Às vezes penso estar incomodando, dando trabalho, preocupação e despesas... já pensei até mesmo em recusar ou devolver algumas contribuições! 

A verdade é que isso não passa de uma forma mais discreta de orgulho. Orgulho sim, porque eu penso ser autossuficiente e não reconheço que preciso ser ajudada. Orgulho porque não suporto a ideia de ser devedora a alguém, de não ter meios de recompensar a ajuda. Orgulho porque no meu sentimento de inferioridade acho que não sou boa o suficiente para merecer tantos benefícios. E, pensando bem, é o orgulho que desde o início tem afastado a humanidade de Deus e impedido a ação dele.

A verdade é que Deus está bem vivo e atuante na vida de todos, embora muitas vezes Sua ação passe despercebida. E mesmo que ele seja poderoso o suficiente para fazer qualquer coisa surgir a partir do nada, ou mesmo fazer com que as dádivas caiam milagrosamente do céu, mas ele na maioria das vezes prefere trabalhar através de importantes instrumentos: nós, os seres humanos. A bondade, o altruísmo e a generosidade no coração das pessoas são características divinas, que Deus graciosamente quis compartilhar com a humanidade corrompida pela maldade. A generosidade é tão admirável que faz pessoas comuns expressarem com simples gestos coisas mais lindas que as mais sofisticadas palavras dos poetas. Além de tudo isto, a generosidade reflete o caráter de Deus e é uma das marcas de um cristão verdadeiro. “Mas se alguém que se considerar cristão possui dinheiro suficiente para viver bem, e vendo um irmão em necessidade e não o ajudar - como é que o amor de Deus pode estar nele?” (1 Jo 3:17)

Generosidade. Essa palavra me faz lembrar automaticamente de uma pessoa. Infelizmente não posso mencionar seu nome aqui. É tão discreto que foge dos holofotes. Não é alguém rico, poderoso ou famoso. É muito tímido para isso. Muitas vezes sequer é notado. Não é do tipo popular, mas aqueles poucos que são presenteados com sua amizade descobrem um companheiro sincero, compreensivo e bondoso. Embora não seja uma pessoa que expressa seus sentimentos facilmente e nem publicamente, ele possui outros meios de demonstrar afeição. E quando resolve tomar uma atitude, é capaz de deixar até as pessoas expressivas como eu completamente sem palavras. Ele é muito humilde para reconhecer (imagino até o que ele esteja pensando ao ler esse texto: "Nem tanto, mestre!"), mas a verdade é que o seu exemplo de vida me ensina e me inspira a ser alguém melhor.

Não preciso descrever aqui em detalhes cada uma das formas pelas quais ele já foi generoso comigo. Embora eu até gostaria de fazer isso. Mas o que importa de verdade não é o valor material, sentimental ou mesmo financeiro das suas contribuições. Tudo isso é relativo e passageiro. O que perdura são as muitas lições que aprendi com a sua generosidade. Eis algumas delas, vistas à luz da verdade bíblica:

Generosidade recusa louvores para si. Há um ano fui agraciada com um presente que considero o melhor que recebi até hoje, não pelo que custou, mas pelo que representou. Ganhei um computador novo, e não foi projeto do governo, Gugu na minha casa, Caminhão do Faustão ou outro concurso do tipo. Com mais de cinco anos de uso, meu computador antigo já estava nas últimas e me deixando na mão nos trabalhos. E eu não tinha condições de comprar outro. Minha alegria foi tão imensa, que tive vontade de gritar aos quatro cantos a bênção que tinha me acontecido. Com um simples gesto muitos problemas da minha vida foram solucionados. Qual não foi a minha surpresa, que o doador preferiu ser anônimo. “Não diga a ninguém não viu? Faz de conta que caiu do céu. Diz que um desconhecido deixou aí.” Ele pediu e eu entendi. "Quando vocês fizerem um favor a alguém, façam-no secretamente - não contem à sua mão esquerda aquilo que a sua mão direita está fazendo. E o seu Pai, que conhece todos os segredos, recompensará todos vocês." (Mt 6:3 e 4)

Generosidade não tem necessidade de receber algo em troca. Estamos cada vez mais acostumados a fazer só aquilo que de alguma forma nos trará algum benefício. Perda de tempo, atividades inúteis e desperdício de recursos são evitados a todo custo. Uma atitude altruísta nesse mundo tão competitivo soa como autodestrutiva. Mas a generosidade verdadeira é assim: é doar sem esperar recompensas, o que se torna ainda mais real quando a pessoa ajudada não tem qualquer condição de recompensar o benefício. Foi assim comigo, no momento em que ganhei aquele presente maravilhoso. Tudo o que eu pude dizer foi: “Um dia espero também poder te ajudar como está me ajudando.” E a resposta mais uma vez me deixou sem argumentos: “E as suas orações? Mais que isso? Orações têm mais poder.” Não havia qualquer interesse em pagamento. O ato generoso é um fim em si mesmo, não um meio para alcançar alguma coisa.

Generosidade é se sentir feliz por ajudar. No meio das suas grandes contribuições, tem umas pequeninas que me marcaram. Lembro-me de um teclado cor-de-rosa que ele me deu, quando o outro que eu tinha estava sem funcionar. Ele disse que é porque gostava de conversar comigo na internet, o que seria impossível sem um teclado. Engraçado, ele me fez um favor, mas deu a entender como se o benefício no fim das contas fosse para ele. Como Lucas, eu me lembro das palavras do Senhor Jesus que disse: "Há maior felicidade em dar do que em receber." (At 20:35) Generosidade e alegria devem estar sempre de mãos dadas. Deus também é contente em ser generoso conosco: "É uma grande felicidade para o Pai do céu dar o Reino a vocês." (Lc 12:32)

Generosidade não apenas ouve os problemas, mas faz o que pode para ajudar. Já perdi a conta de quantas vezes eu fui desabafar sobre alguma dificuldade que estava passando e depois disso ele se comprometeu a me ajudar. Como da vez que eu contei que minha bolsa estava atrasada há mais de um mês e não tinha mais dinheiro nem para a passagem de ônibus. Aí ele me aparece com dez reais, sendo que o valor da passagem nem é tão caro assim. Ou da vez que fui dizer quantos voos eu precisaria pegar para viajar até Manaus, aí ele foi e me comprou uma das passagens com as milhas aéreas que possuía. Esse tipo de situação tornou-se tão comum, que parecia como se eu estivesse contando os problemas para ele resolver. Isso me deixava constrangida de uma forma que resolvi parar de desabafar por uns tempos. Tolice a minha. Ele estava apenas tentando cumprir o que a Bíblia diz: “Nunca deixe de ajudar a quem precisa de ajuda, se você puder ajudar.” (Pv 3:27)

Generosidade é reconhecer que tem tudo que precisa. Todos os anos tenho uma certa dificuldade para presenteá-lo no seu aniversário. Como acrescentar algo a uma pessoa que já tem tudo? Não digo no sentido material, pois se pensarmos bem, não há nenhum ser humano que tenha tudo o que deseja. Nem mesmo a pessoa mais rica, pois ela sempre deseja mais do que tem. Falo aqui de outro tipo de riqueza. “Tenho tudo, no sentido imaterial”, foi o que ele me respondeu quando eu falei em dar um presente. Ele mesmo reconhece que é alguém abençoado por Deus e que nada lhe falta. E, de fato, só uma pessoa plenamente satisfeita tem condições de ser generosa. Só se doa o que se tem.

Generosidade é confiar na lei da semeadura. A vida e a Bíblia nos ensinam que “um homem sempre colherá justamente o produto da semente que ele plantou.” (Gl 6:7) Então ao ser generoso você pode estar absolutamente certo de esperar recompensa em Deus. “Quem reparte generosamente seus bens com outras pessoas se tornará cada vez mais rico. (...) Sim, a pessoa generosa terá sempre mais e mais; ela receberá de volta todo o bem que fez a outros.” (Pv 11:24 e 25) Como diz Falcão, digo, São Francisco em sua oração: “Porque é dando que se recebe.” Em muitas das vezes que fui ajudada tudo que eu pude responder a este amigo foi: “Que Deus te recompense! Que Deus te dê em dobro tudo que está fazendo por mim.” Porque eu estou certa de que, mesmo que eu nunca venha a ter condições de pagá-lo, Deus o fará melhor do que eu jamais poderia fazer. 

Generosidade é saber que não levará nada daqui. Uma das minhas frases favoritas, que nem me lembro de quem é nem onde li, diz assim: “Não é tolo quem entrega o que não pode reter para ganhar o que não pode perder.” Há nessa frase duas verdades importantes que se nós seguíssemos, seríamos pessoas bem mais generosas. Primeiro: nada do que temos é realmente nosso. Tudo vem de Deus, graciosamente e gratuitamente. Segundo: nada do que temos irá conosco quando morrermos. Tudo que é valioso aqui não vale nada na vida eterna. Olhando por esse ângulo, podemos ver que ser generoso é um bom negócio! Jesus deixou a dica: “Vendam o que têm e deem aos que estão em necessidade. Isto aumentará seus tesouros no céu, onde não há ladrão para roubar, nem traça para destruir.” (Lc 12:33)

E esta semana fui surpreendida novamente com sua generosidade. Mais uma vez este amigo tomou a atitude certa na hora certa, me trazendo alegria num dia especial e grande alívio no meio da dificuldade. Passei vários dias tentando encontrar palavras que expressassem minha gratidão. Consegui apenas isto. É pouco, mas tenho certeza de que ele nem esperava tanto. As pessoas mais próximas talvez até saibam de quem estou falando. Mas é melhor que continue assim, no anonimato. Para que a glória não seja minha e nem dele, mas daquele que é o maior generoso de todos, em nos conceder a dádiva da generosidade. As pessoas morrem, os momentos passam e as coisas acabam, mas as atitudes ficam para sempre!


Em Cristo,
Débora Silva Costa.

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